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O derradeiro barojiano português

Encontrei um velho livro do escritor espanhol Pio Baroja (1872-1956) nas estantes da dona Crisálida, alfarrabista do Campo de Ourique, um poço sem fundo onde sempre encontramos alguma coisa. É Paseos de un solitario (Relatos sin ilación), publicado por Biblioteca Nueva em 1955, um ano antes da morte do autor. Nele, Baroja relembra as suas andanças pela Paris de antes da Primeira Guerra e, depois, os da sua estadia parisiense durante a guerra de Espanha, como exilado voluntário que fugiu dos dois lados, o nacional e o republicano, desde 1936 até 1940.

Um leitor português desconhecido comprou-o, segundo a etiqueta no verso da capa, na Livraria Ecléctica, que estive no 58 da Calçada do Combro, e tinha o telefone 28663. E este portugués o leu com atenção pois há pequenas marcas com lápiz que assinalam nomes, autores, lugares. Entre as folhas, encontrei um bilhete do Cinema Jardim de  17 de julho de 1965 (Matinée, 1ª Plateia, Fila L, nº 4, preço 6 $). O Cinema Jardim ficava na avenida Alvares Cabral, ao pé da garagem Monumental. Hoje é uma grande loja chinesa, depois de ser ums bilhares, mas o prédio é o mesmo, felizmente conservado, mesmo se o cinema já desapareceu há muitos anos.

O livro de Baroja é uma pura digressão. Com a sua visão desencantada, fala das ruas da velha Paris desaparecidas, sobretudo das que estavam entre St. Séverin e o Sena, assim como do Parc des Buttes Chaumont, dos bairros da Paris ‘canaille’ que ele gostava de frequentar com seu amigo (inventado?), o Doutor Fournier. As suas opiniões sobre escritores são em geral negativas, só salvam-se Dickens, Balzac e poucos mais. Em geral, fala só dos escritores do XIX.

Pio Baroja não tem estilo, escreve como está a pensar, sem mais adornos nem adereço. É por isso que muitos críticos literários o menosprezam e afirmam que era um mau escritor. Mas, precisamente, a sua espontaneidade é o que dá a frescura aos seus livros e as suas histórias. E como ele só segue o seu pensamento, pode dizer uma coisa e a contrária umas páginas mais à diante, carece totalmente da vaidade do literato. Não foi um esteta literário.

Poucos escritores como Pio Baroja tem pintado melhor o País Vasco, Euskadi, as suas gentes, seu povo. Baroja, aparentemente um misántropo foi um homem que conhecia a fondo a natureza humana. Não em vão era médico de formação e por isso sabia descrever muito bem os diferentes tipos humanos.

Além de não seguir os cânones, ele não pretendeu nunca ser significante nem importante. O que para ele era importante, não era importante para os homens de negócios ou para os políticos e, no entanto, seus livros são um fiel reflexo da Espanha do seu tempo. Sem esquecer o seu grande fresco do século XIX que são os 20 volumes das aventuras do conspirador Eugenio de Aviraneta, Memorias de un hombre de acción, para muitos superior as Episodios Nacionales de Pérez Galdós.

Baroja costumava passeiar e procurar livros raros nos bouquinistes dos cais do Sena e, em Madrid, nos alfarrabistas da Cuesta Moyano, perto do Parque do Retiro. Grande parte da sua biblioteca está agora em Navarra, na sua antiga casa, Itzea, em Vera do Bidassoa, aldeia que aconselho visitar, assim como o Vale do Baztán, um dos lugares mais belos de Espanha.

A lista das coisas, lugares, ideias e escritores dos que não gosta é inesgotável. O leitor pregunta-se se alguma coisa lhe é aceitável a don Pio Baroja. Não gosta do cimetério de Montparnasse (“feo y sin gracia”), da maioria dos franceses, dos judeus, dos novos bairros ‘higiénicos’ construidos depois da demolição dos “quartiers insalubres”, mas tem alguma razão:

“Siento en mí la desolación de todos estos lugares que recorro, su romanticismo, y comprendo que su aspecto de abandono y melancolía está un poco en consonancia con el tono sentimental de mi espíritu (…) La casa leprosa de las afueras de la gran ciudad, derrengada y con la pared reverdecida por la lluvia, da la impresión menos siniestra que el edificio nuevo, recién construido y recién pintado, que parece cosa de juguete .”

Baroja, grande caminante, foi um observador das cidades, dos seus arredores, se calhar, junto a Pérez Galdós, o escritor espanhol que mais atenção presta ao urbanismo. Nos seus romances, as personagens sempre ficam no contexto, no cenario, dos bairros, das ciudades onde actuam. As paisagens urbanas de Baroja são inesquecíveis, cheias de poesía, são como uma triste balada.

Também tem toda a razão Baroja quando escreve sobre a chatice da policía francesa, da Préfecture e da Conciergerie, onde ele teve que passar horas, días, para, ao fim, obter um papel que não servia para nada. Ainda é a mesma coisa: ‘constituer un dossier’ é a frase favorita de todo funcionário francés (ou belga), o que significa que há que esperar meses, mesmo anos, para ter algum resultado. Ah, a modélica administração jacobina!

Muitas das coisas das que fala já as dissera nas suas Memórias (Desde la última vuelta del camino) e no livro Desde el exilio. Ele morou em diversos bairros e no colégio ou Casa de Espanha, onde também meu pai morou aos fines dos anos quarenta. É um pavilhão que fica na Cidade Universitária do Boulevard Jourdan, perto do Parc Montsouris que Baroja descreve em Susana, obra puramente parisiense, chamada ‘novela de post guerra’.

Todos têm escrito algo sobre Paris, desde os americanos até aos alemães, desde os italianos aos portugueses. Não é pois novidade falar de Paris. O que é mais original é essa tristeza, não ‘apagada e vil’, por certo, mas tristeza ao fim, de Baroja. Que diferença com as evocações algo fantasiosas do mexicano Carlos Fuentes em Terra Nostra, ou os passeios da Maga e Oliveira no O Jogo do mundo/Rayuela de Cortázar (enterrado no cimetério execrado por Baroja, Montparnasse!).

Quero pensar que nosso leitor desconhecido que levou o livro ao Cinema Jardim gostava de Baroja porque lembrava-lhe a saudade e melancolía lisboetas, os bairros mesocráticos e pacatos das Colónias, da avenida do General Roçadas e os bairros orientáis, sobre tudo Marvila. Como Baroja, também este portugués, lisboeta, tería saudades das velhas construções e prédios que eram a alma de Lisboa e que pouco a pouco estavam a desaparecer, a ser demolidos ou a ser reformados, tirando-lhes o carácter, a personalidade única desta Enseada Amena, como a chamava Augusto Abelaria.

[Agradeço ao meu amigo Paulo Oliveira a revisão do texto em português]

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